“O Poço’’, filme espanhol com o título adaptado ao português (El Hoyo – título original) é uma produção original Netflix que entrou no catálogo da plataforma de streaming dia 20 de março e já tem dado o que falar entre seus espectadores. 

Assisti o filme pela sinopse que escutei do meu amigo que me deixou extremamente curioso. E digo, que desde que assisti, senti uma necessidade frenética de falar sobre tudo o que meus olhos presenciaram. 

Minha análise não será conduzida pela perspectiva bíblica e dos 7 pecados capitais, que está circulando por aí e que faz total sentido (recomendo ver). O filme tem como espaço principal o Poço, um prédio dividido em mais de 200 andares. O Poço possui uma abertura central por onde passa uma plataforma de comida diariamente. O enredo se passa inteiramente dentro desse espaço (considerado uma prisão), e o que torna-o envolvente é a sua narrativa que retrata a verticalidade da hierarquia daquele lugar. 

Cada andar possui duas pessoas que dividem aquele espaço durante 30 dias até serem remanejadas para outro andar. Não fica claro no filme o porque da troca, entendo como se fosse uma valorização e compreensão do que cada andar os proporciona. Importante ressaltar que apesar de ser considerado uma prisão, as pessoas ali presentes puderam escolher estar ali. 

Cada personagem pode levar consigo um objeto, qualquer um que seja. O personagem principal  Goreng (Ivan Massagué) leva o livro Dom Quixote, onde é possível estabelecer uma analogia entre a obra e o enredo do filme, uma vez que a beleza esteja entre o idealismo do personagem e a verdadeira realidade que se vai apresentando. Além do mais, Dom Quixote é um dos expoentes da literatura espanhola, e por que não explorar isso, não é mesmo? 

O personagem principal vivencia três trocas de colegas, e a cada troca nota-se que valores que ele prega são ou não compatíveis com os de seus companheiros. Seu primeiro companheiro Trimagasi (Zorion Eguileor) traz diálogos inteligentes e ao usar repetidamente a palavra óbvio, percebemos ironicamente as loucuras do personagem. 

Sua segunda colega Imoguiri (Antonia San Juan), usa dois termos muito interessantes: o nome técnico pra aquele lugar: CVA (Centro Vertical de Alimentação) e o que ela chama de solidariedade espontânea, o que faz total sentido naquele contexto. E por fim, seu terceiro companheiro é o que lhe ajuda de fato a tentar reverter a mecânica daquele lugar. 

A fotografia do filme é escura e direciona nosso olhar para aquilo que deve ser visto, independente da crueldade dos fatos. Os sons são marcados e a trilha sonora ajuda na construção e no adentrar da história. Por exemplo, os sons da chegada da comida e da subida da plataforma se repetem demasiadamente. 

O filme é extremamente nojento e revoltante, revelando cenas de canibalismo e a sujeição de ter que comer os restos de comida dos andares superiores. Ademais, percebe-se uma crítica ferrenha ao sistema hierárquico de uma sociedade, onde sentimentos como a empatia e o egoísmo são latentes. E que talvez a única coisa que pudessem se agarrar naquele momento fosse a esperança escassa daquele lugar.

[SPOILER] O final aberto do filme deixa lacunas e perguntas que você se vê sem resposta. A cena final seria uma representação da luz no final do poço? O que acontece com o personagem Goreng?  O que acontece com a garota ao chegar no andar 0? Essas são algumas das perguntas que me fiz ao terminar de assistir. 

E que momento mais oportuno para esse filme vir a tona do que o qual estamos vivendo hoje? Acho que é válido tal  reflexão sobre os nossos comportamentos e crenças, e que valorizar as pequenas coisas e momentos efêmeros seja uma válvula de escape, ou até mesmo a esperança de dias melhores.

Espero que tenham gostado do post. Grande abraço e até o próximo!

 

Atenciosamente,

Nataniel Totti

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